Resenhas

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, Mia Couto + SORTEIO

14 de setembro de 2015

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Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra é um livro inteligente, denso, sensível. Conheça a poética de Mia Couto e concorra a um exemplar ao final do post.

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África. Mia Couto mais uma vez nos leva ao seu continente, ao seu universo. Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra nos deleitamos em sua cultura, crenças, religião. O livro traz um panorama da África pós-colonial. Tudo cheio de lirismo, beleza, sem ser direto e explícito no retrato de questões políticas. É necessário buscar informações para se fazer esse elo, para ler toda a metáfora da obra. A história se situa num período de paz, depois de 16 anos de guerra. Sem essa informação, não compreendemos da mesma maneira este livro, que traz uma nação em estado de abandono e miséria.

“Nenhum país é tão pequeno como o nosso. Nele só existem dois lugares: a cidade e a Ilha. A separá-los, apenas um rio. Aquelas águas, porém, afastam mais que a sua própria distância. Entre um e outro lado reside um infinito. São duas nações, mais longínquas que planetas. Somos um povo, sim, mas de duas gentes, duas almas.” (pág. 18)

Na obra, o espaço é Luar-do-Chão, para onde Marianinho regressa com a incumbência de cuidar do enterro de seu avô Mariano, de quem herdou o nome. Nessa volta às origens, já que Marianinho saiu, mais jovem, para viver na cidade, o personagem já não mais pertence a esse lugar. Acabou, nesse distanciamento, adquirindo hábitos de homem branco.

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Nas águas do rio Madzimi, Mariano parte em busca das suas origens e do seu passado. Aos poucos, o protagonista vai vendo que regressou para reencontrar-se, para descobrir-se novamente em sua casa, sua terra.

“Manhã cedo me ergo e vou à deriva. (…) Pretendo apenas visitar o passado. Dirijo-me às encostas onde, em menino, eu pastoreava os rebanhos da família. As cabras ainda ali estão, transmalhadas. Parecem as mesmas esquecidas de morrer. Se afastam, sem pressa, dando passagem. Para elas, todo o homem deve ser pastor. Alguma razão têm. Em Luar-do-Chão não conheço quem não tenha pastoreado cabra. Ao pastoreio devo a habilidade de sonhar. Foi um pastor quem inventou o primeiro sonho. Ali, face ao nada, esperando apenas o tempo, todo o pastor entreteceu fantasias com o fio da solidão. As cabras me atiram para lembranças antigas.” (pág. 190)

A obra é povoada de eventos fantásticos, talvez por ser carregada de religiosidade/espiritualidade.

Os personagens, além dos já citados, que farão parte de intrigas/segredos familiares são Fulano Malta (pai de Marianinho), os tios Abstinêncio, Ultímio e Admirança, a já falecida Mariavilhosa (mãe de Marianinho) e sua avó Dulcineusa.

Parte desses eventos fantásticos se passam em Nyumba-Kaya, a casa de seus avós. O falecimento do avô permanece estranhamente incompleto. Mariano recebe do avô – morto ou vivo? – a missão de normalizar a vida em Luar-do-Chão, mas precisa encontrar uma nova forma de salvar a terra, que também é a sua casa, e reconstruir uma nova terra, sem abandonar as tradições. Na obra, Mariano, vai sendo guiado por cartas, inicialmente anônimas, de como deve agir para completar sua missão em Luar-do-Chão.

Mas há um outro problema na história, além das intrigas familiares, da responsabilidade que cada um carrega em determinado ponto da narrativa, a recusa da terra em receber o corpo de seu avô antes do tempo certo (há a dúvida sobre Mariano estar totalmente morto). O chão arenoso resiste à pá do coveiro. A terra está doente. E toda essa trama fantástica vai se ligando aos fatos e aos personagens da história. Capítulo por capítulo as peças do quebra-cabeça vão se encaixando.

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Daí toda a beleza da obra, a leitura proporciona um mergulho em outra cultura. É carregada de símbolos, crenças, história. Rio, tempo, casa, terra. Essas palavras, presentes no título do livro, são significativas à leitura, guiam nosso olhar para o que precisamos ver, para além das personagens e das tramas. Conhecemos, assim, a história do continente, do povo africano.

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A Companhia Das Letras vai presentear um leitor do blog com um exemplar de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Aproveitem para concorrer seguindo os passos no aplicativo abaixo. É preciso ter endereço de entrega no Brasil e o envio será feito pela Juliana no prazo de até 15 dias úteis. Boa sorte! 
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Editora: Companhia das Letras
Gênero: Romance Moçambicano (Português)
Páginas: 262
Adicione: Skoob
Minha avaliação:★★★★★

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  • Camila Saraiva junho 14, 2016

    Nossa adorei… muito bem resumido, vou ter que fazer um seminário sobre esse livro… muito linda a historia, apaixonada…

  • Danielle setembro 29, 2015

    Há tempos ando querendo ler… quem sabe logo o faço 😀
    Abraços, gostei muito da resenha 😀

  • Vitória Dourado setembro 26, 2015

    Estou participando do sorteio e espero, ansiosamente, poder ganhar. Seria muito bom!
    Ah! Não posso me esquecer de elogiar seu trabalho, Ju. Ótimas resenhas, tanto em vídeo quanto escritas. Te adoro ?

  • Ana Carolina Zimmermann setembro 26, 2015

    Participando e torcendo!!
    e-mail: anaczi55@outlook.com

  • Mareska setembro 26, 2015

    Mia Couto é puro amor <3 mas por enquanto nenhum bate o Estórias Abensonhadas no meu coraçãozinho!

  • Thamiris Alves setembro 23, 2015

    Eu amo Mia Couto,sou apaixonada por A Confissão da leoa e Terra Sonâmbula <3. Parabéns pela resenha!

  • Julia Melo setembro 21, 2015

    Já li algumas coisas da Mia mas este ainda não, adoro a Africa estou louca por esse livro!

  • Fran Ferreira setembro 19, 2015

    Boa sorte a todos novamente e uma ótima leitura ao ganhador(a).

    Bjss

  • Adriano Farias De Souza setembro 18, 2015

    Eu gostei da resenha, porém ficou meio confusa para mim… o personagem e africano ou não? quando ele volta para a casa, o avô ja estar morto ou ele morre algum tempo depois? Tem algo sobre escravidão no livro? (amo livros com esse tipo de enredo) Estou amando seu blog 😀

    • silvia setembro 24, 2015

      Adriano, Marianinho é sim africano, mas ao se distanciar de sua terra, ele perde a identidade, vira uma espécie de estrangeiro de sua própria terra. Sobre o avô estar morto, é algo realmente difícil de responder, o livro é meio fantástico, sabe? As coisas não passam muito pelo lógico e racional… É como se ele estivesse num estado “meio morto”. O livro é cheio dessas questões, todo metafórico, nada vem muito de graça ao leitor. Sobre escravidão, acredito que não. Abraço 🙂

  • Isabella Alvarez setembro 17, 2015

    Lembro das duas professoras que me introduziram a Mia Couto. Sempre tão bom, sempre fico de olho nele nas livrarias… Que escritor incrível! E que blog incrível para trazê-lo para cá :3

    • silvia setembro 24, 2015

      Não tive sua sorte, Isabella. Minha descoberta foi recente. Mas nunca é tarde para conhecermos novas leituras, novos leitores, né?! Beijo 🙂

  • Mariana B. setembro 16, 2015

    Olá, Silvia!
    Fico muito feliz em ver uma resenha de Mia Couto aqui no blog, já que conheço poucos que tenham sequer lido Mia, quanto mais resenhado livros dele. Li apenas um livro do autor até agora, mas pretendo ler inúmeros, incluindo esse, devido a forma com que fui cativada por sua escrita.
    A resenha está maravilhosa, inclusive as passagens do livro retratam muito bem o autor e toda a sua delicadeza ao escrever sobre um assunto tão trágico.
    Beijos :*

    • silvia setembro 24, 2015

      Ah, que bom, Mariana! Obrigada pelas palavras carinhosas =)

  • Fabio Yugo setembro 16, 2015

    Ainda não tive contato com a escrita dele , mas sempre vejo boas resenhas sobre , super curioso por esta oportunidade

  • Hel setembro 15, 2015

    Eu não conheço nenhuma obra desse autor, mas nunca é tarde para conhecer novas estórias 😉
    A resenha passou uma sensação boa, deu vontade de ler o livro!

    Beijinhos, Hel.

  • Nessa setembro 15, 2015

    Oi Ju!
    Menina não é de hoje que morro de curiosidade para ler algum livro desse autor. O livro dele que mai almejo é “Confissão da leoa”.
    Fiquei curiosa por este também, parece ser uma leitura bem interessante. E já participando da promoção, quem sabe eu tenho sorte, né?

    Beijinhos
    http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

    • silvia setembro 24, 2015

      Também escuto falar muito bem desse livro. Quem sabe é a próxima leitura do autor que conhecerei. Boa sorte! 🙂

  • Helio de Oliveira e Souza setembro 14, 2015

    A vida dos personagens e historia passado na África e interessante pois não tem muitas obras literárias falando dos costumes africanos e religião nos leva a conhecer melhor esta cultura e seus misticismo parabéns ao autor .

  • Bianca Luiza André setembro 14, 2015

    Juh, conseguisse me ganhar pela resenha! Adorei a escrita, a forma como detalhasse a trama. Sem contar é claro, a capa deste livro…é maravilhosa! A cultura é algo tão falado, entretanto, deixado muito a mercê. E esta cultura da África então, me fascinou..! Parabéns pela escrita e pela forma com que passasse esta narrativa tão rica!

  • Juliana Santos setembro 14, 2015

    Louca pra led o livroooo!!!
    Sempre por aqui! ;*

  • Eliene Ferreira setembro 14, 2015

    Louca pra ler Mia Couto!!! =)

  • Brenda Euriques setembro 14, 2015

    Nossa Ju, que livro fofo!
    Adorei sua opinião sobre ele, estou querendo lê-lo agora *-*
    Capa muito fofa, e a Mia Couto já despertou um grande interesse em mim, vou pesquisar mais livros dela, esse já parece ser perfeito! *-*
    Um beijo Ju, ótima dica ❤

  • Allan setembro 14, 2015

    Realmente o livro parece ser uma viagem cultural! E que capa linda! Gostei! Beijos, Ju!

    • silvia setembro 24, 2015

      Allan, é sim. Que bom que gostou 🙂

  • Reniére Pimentel setembro 14, 2015

    Oi, Ju!
    Eu nunca li nada do Mia Couto, mas não por falta de vontade. Nunca tive contato com nada do autor, mas tenho muita curiosidade pelos livros dele. Espero conhecer a escrita dele em breve. Quem sabe ganhando o sorteio?
    Recentemente li O Planalto e a Estepe, do também africano Pepetela e, meu Deus, que livro lindo. Muito tocante! Tomara que eu me conecte assim também com o Mia Couto.

    Beijos!

    • Silvia setembro 17, 2015

      Conheci sua obra no ano passado, de lá pra cá não larguei mais…
      Vou procurar saber sobre o Planalto e a Estepe. Bj 🙂

  • Grazielle Monteiro setembro 14, 2015

    Achei a história bem interessante. Adoro Tudo relacionado a África. Adorei a resenha! 😉

  • Anna Paula Lameiras setembro 14, 2015

    Conheci o Mia Couto numa palestra q ele deu na Faculdade de Letras da UFRJ. Maravilhoso!
    Bjs!