Resenhas13 de janeiro de 2016

ALICE E ULISSES, de Ana Maria Machado

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Quando a paixão decide arrematar corações não há escapatória. Ela fisga, puxa, encara, impõe. Seus escolhidos podem até resistir, mas por pouco tempo. Surge então envolvimento, troca, entrega, suspiros. Se a paixão será eterna, não dá para saber, só sentir. Os protagonistas desta história que o digam.

Este é o primeiro romance da renomada autora Ana Maria Machado. Trata-se de uma trama tecida em poucas páginas que fala da luta eterna travada por todos os seres humanos: a luta entre a mente e o coração, ou, se preferirem, a luta entre os sentimentos da alma humana. Alice e Ulisses são duas pessoas adultas e bem resolvidas. Ela, uma professora recém-separada. Ele, um cineasta casado. Quando seus olhares se encontram num evento noturno a atração é inevitável, irrevogável. Sabem que têm responsabilidades, mas elas que se resolvam. Ulisses, mais velho que Alice, não consegue pensar em mais nada a não ser na professora. Alice não consegue esconder a vontade que sente daquele homem. Os dois acabam se conhecendo melhor e não querem perder tempo, não querem muitos encontros para que ocorra o grande encontro, aquele de entrega total. O que acabam nutrindo um pelo outro torna-se necessidade e é diante dessa necessidade que eles precisam decidir: escutar as batidas de seus corações ou os sermões de suas mentes.

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Refrear um forte sentimento, uma forte atração, é uma tarefa árdua. Difícil de ser cumprida e mais ainda se cumprida. Muitos acreditam que colocar rédeas sobre o amor ou a paixão se faz necessário para que a culpa não pese demais para quem ama e se deixa levar. Culpa por gostar, gostar do errado, do proibido, do que a lei dos homens dita, por amar quem não deveria. Alice e Ulisses se envolvem fortemente, mas com o passar das horas percebem que estão adentrando uma zona de perigo, por um caminho sem volta. A professora é a primeira a enxergar a realidade que os cerca. Quanto mais envolvimento, mais necessidade sentirão um do outro.

(…) Mas se emocionar, se comover, se tocar, sentir, simplesmente, é uma transgressão, um desvio de comportamento. Dizer que alguém é emotivo chega a ser pejorativo, quase um xingamento. Dizer que é sensível traz implícito um toque de fragilidade, como uma acusação. Culpado de sentir. Porque o ideal nesta sociedade é ser forte; e não é só agora, por causa da ditadura, nem só aqui, não, é de todos os civilizados, urbanos, ocidentais que eu conheço. O que ninguém vê é a coragem, o colhão que precisa ter para admitir o sentimento e viver de acordo com ele.

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Um ponto notável que o livro traz é como Ulisses fala do seu amor por Alice. A princípio, é compreensível enxergar os sentimentos de Ulisses como doentios. Sua necessidade por Alice é incalculável. Obsessão? Não, provavelmente não. Analisando com cautela os sentimentos do cineasta dá para categorizá-los em amor, no mínimo uma paixão que não causa danos. Talvez não seja essa a ideia que geralmente se tem do que é amor. Afinal, ninguém é igual. Cada um pensa de forma diferente, sente diferente. O amor de um jamais será o amor do outro. A paixão, o carinho, o sentimento de Ulisses por Alice exime julgamentos. Merece ser respeitado.

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– O que aconteceu?

– Nada. Só isso. Nada.

– Nada. Quando você não está comigo, não tem nada. Não consigo pensar em nada, não converso, não trabalho, não escrevo, não filmo, não aguento mais, estou preso, enredado, enfeitiçado, doente, sofrendo. Você sabe o que é isso? (…)

(…) – Que é?

– Você não está entendendo. Eu não vou mais te ver. Se não, eu não aguento. Eu não vou mais te ver. Se não, eu não aguento. (…)

A narrativa aqui resenhada tece um caminho que é percorrido, muitas vezes, pelos pobres corações dos apaixonados. Enquanto há chama de prazer, de vontade, de querer, tudo vai bem. Mas ninguém sabe de fato se relacionamentos duram para sempre, por maior que seja a afinidade entre as partes. Já diz o conhecido ditado: quando um não quer dois não brigam… Ah! Brigam sim! Claro que brigam! Alice e Ulisses são a prova disso. Brigam porque já não sabem mais o que fazer com o que acham que é um relacionamento. Enquanto Alice está decidida a não ver mais Ulisses, este, em contrapartida, não desiste de seu benzinho.

Você fica aí assim, toda calma e superior, enquanto eu estou aqui sofrendo… Mas você vai ver só. Não faz mal que você não esteja sentindo o mesmo. Eu vou te amar tanto, mas tanto mesmo, que não vai caber, vai derramar, vai te inundar e vai acabar até sobrando para você me amar de volta. Você vai ver (…).

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Ana Maria Machado não nomeou seus protagonistas com nomes icônicos à toa. Alice e Ulisses, apesar de serem adultos, apaixonados e belos inconsequentes, são alusões claras às personagens principais de Lewis Carroll e de Homero. Durante a leitura do livro é maravilhoso ver referências da menina que descobre o País das Maravilhas e do homem que se arrisca numa fantástica Odisseia. Outro fator encantador na obra é que a autora coloca pequenos trechos de contos de fadas que retratam as princesas mais famosas que já existiram, como é o caso de Branca de Neve e A Bela Adormecida. Esses trechos são fundamentais para o enriquecimento da trajetória de Alice e Ulisses, principalmente da professora recém-divorciada, que parece ser todas as princesas em um único corpo.

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Alice e Ulisses é uma obra inesquecível. Há momentos em que parece literatura fantástica, por mais que a história se passe em tempos modernos. Um livro que fala de amor, renúncia, paixão e superação. É uma história que aborda o poder que o coração e a mente podem ter sobre o ser humano, mas que mostra como o livre arbítrio é capaz de elevar um homem e uma mulher que buscam a felicidade.

Editora: Alfaguara
IBSN:  9788579621260
Gênero: Romance
Páginas: 104
Adicione: Skoob
Minha avaliação:★★★★★

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